domingo, 16 de janeiro de 2011

Ai, Dindi, por que você foi embora?

Em 1997 fui passar uma semana em numa pousada em Trancoso, na Bahia. Levei comigo um livro que acabara de ganhar: Um Homem Iluminado, biografia de Tom Jobim escrita pela irmã Helena. Li em dois dias, pois não conseguia parar. Vez ou outra me emocionava com alguma passagem e retornava ao início do parágrafo para que ela ficasse cravada em minha memória e o tempo não a apagasse.

Helena Jobim contou muitas histórias que se passaram no sítio Poço Fundo, em São José do Vale do Rio Preto, onde Tom se refugiava para curtir a natureza exuberante e compor muitas pérolas de seu repertório. Lá nasceram, entre outras, Águas de Março, Matita Perê e Dindi. Esta última, a montanha que Tom vislumbrava de seu sítio e para a qual o compositor cantou uma das suas mais belas canções: Se um dia você for embora me leva contigo, Dindí.

Hoje li no site do Estadão, que o Poço Fundo é mais uma das vítimas das águas de janeiro que caem furiosas na serra fluminense. O refúgio do maestro desapareceu em duas horas. O jornal falou com o neto Daniel que chegou a ver a casa do avô cair. Daniel disse também que as músicas do avô soam como "proféticas”. Jobim foi um dos pioneiros a falar sobre o perigo do desmatamento e sobre a preservação da natureza. Cantou o urubu, o matita perê, o boto e o Passarim que “quis pousar não deu voou, porque o tiro partiu e não pegou”.

Ao final da matéria Daniel fala que depois da destruição do Poço Fundo pelas enxurradas de janeiro, Águas de Março, composta lá, soa agora como uma previsão: "É pau, é pedra, é o fim do caminho / É um resto de toco/ é um pouco sozinho."

Na sexta-feira, o Diário de São Paulo abriu duas páginas com imagens lado a lado de uma enchente na Alemanha e da destruição de Teresópolis. Em Colônia, o rio Reno subiu, mas os alemães se precaveram com barreiras que impedem que alguém seja levado pela enxurrada.

Aqui no Brasil, a única providência que as autoridades tomam é o resgate das vítimas da tragédia anunciada a cada verão chuvoso. Já está na hora de os nossos governantes começarem a tomar providência tão logo as águas de março fechem o verão. Assim, em 2012, a gente não volte a contabilizar corpos de brasileiros esquecidos nos morros devastados pela falta de planejamento habitacional e ambiental.

sábado, 15 de janeiro de 2011

My last Picture Shows

Cybill Shepherd em A última Sessão de Cinema
O cinema entrou na minha vida pela porta da Basílica Velha de Aparecida. Ser um garoto nos anos 60 na minha cidade significava frequentar o catecismo e assistir às missas do domingo. Quem o fizesse, ganhava um ingresso para a matinê do domingo às três da tarde. Ao final da missa, formávamos uma fila e Glória, nossa catequista, distribuía aquele precioso tesouro que nos levava a sonhar lá no Cine Aparecida. O filme do domingo era sempre precedido por seriados do Roy Rogers ou Nacional Kid, que continuavam na semana seguinte. Na maioria das vezes eram bem mais saborosos que o prato principal.

Na adolescência migrávamos para o Cine Ópera. Antes do início da sessão, fazíamos hora no Ouro Fino para um café, o mesmo point da pizza após a sessão. Neste cinema, cheguei a ver Mazzaropi na tela e ao vivo. Sim, ele foi promover um filme no Cine Ópera e lá estava eu espremido junto com metade da cidade. Lembro da cena do nosso Jeca entrando no palco caminhando como seus personagens e levando a platéia à loucura.

Em 1972, no mesmo Cine Ópera vi A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show), de Peter Bogdanovich. Naquele momento o filme entrou para a galeria dos meus prediletos, aliás, passou a figurar como o melhor que eu havia visto até então. Saí da sessão e as imagens me acompanharam por um bom tempo. Não tirava da cabeça a loirinha Cybill Shepherd, a futura gata de A Gata e o Rato. Por um bom tempo ela povoou os meus devaneios.

O que mais me chamou a atenção em A Última Sessão de Cinema foi o fechamento do Royal Theater – o cinema onde viviam os personagens antes de deixarem a pequena Anarene, cidade do Texas onde se passa a história. A falta daquele público fiel levou à inevitável última sessão de cinema do título.

Para mim seria inconcebível que um dia o mesmo ocorresse com os cines Aparecida e Ópera. Infelizmente aconteceu. Os dois cinemas da minha infância e juventude não existem mais. Eles fecharam bem depois que deixei a cidade rumo a São Paulo, em 1973. O Cine Aparecida se tornou uma extensão da Basílica, como casa de oração. O Ouro Fino continua no mesmo lugar, mas Cine Ópera deu lugar a uma agência da Nossa Caixa. Hoje, não existe nenhum cinema em Aparecida e os apaixonados pela sétima arte têm que recorrer a um shopping em Guaratinguetá, pois lá também os cines Central e Urânio se transformaram em duas mega lojas.

Quando cheguei a São Paulo me empanturrei. De pronto tracei um mapa e passei a frequentar os melhores cinemas da cidade: os cines Gazeta, Gazetinha e Gazetão; Cine Marachá, que às quartas-feiras apresenta Sessão Insólita e às sextas a Sessão Maldita; Cine Astor; Cine Paulistano e Biarritz, na Brigadeiro; Cine Majestic; o lindo Cine Bristol (que pegou fogo em 1987) com suas escadas sempre enceradas e suas armaduras na decoração; e o Belas Artes. Este último um dos meus prediletos, pois sempre cuidou de exibir uma programação impecável. Como no Cine Ópera, em Aparecida, nos anos 80/90 fazíamos ponto antes e depois da sessão no Baguette, do Hércules e João Pedro, ou na Livraria Belas Artes, de José Luiz Goldfarb.

O tempo, a TV e as locadoras foram aos pouco – como o Schwarzenegger – exterminando os nossos cinemas de rua. As salas foram sendo entrincheirados nos shoppings da cidade e as antigas salas transformadas em bingo ou igrejas evangélicas. O Belas Artes foi um dos que resistiram bravamente lá na esquina da Consolação com a Paulista... até esta esquina de 2011. A notícia de seu fechamento e as correntes para que isso não ocorra tomam conta dos amantes daquele espaço, no qual me incluo. O Belas Artes não pode fechar apenas pela ganância de Flávio Maluf, o atual herdeiro, que deseja abrir lojas no local. Será que este exterminador de cinemas – que deve ter muitas posses – não consegue viver com o aluguel (que não deve ser barato) do espaço?

Senhor Flávio Maluf, não pense em sua esquina apenas como um ponto comercial. Lembre que o Belas Artes é parte integrante da vida cultural da nossa cidade. Pare um pouco e pense. Por que o senhor não desiste de suas lojas? Se o senhor voltar atrás, com certeza será lembrado no futuro como o cidadão que salvou uma das trincheiras culturais mais importantes da cidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Eu já estou com o pé nesta estrada...

Estrada Real: uma estrada vazia e sem pedágios.
... Qualquer dia a gente se vê, sei que nada será como antes, amanhã...

Depois de três semanas de férias entre Natal e a primeira semana de janeiro, a reentrada na atmosfera foi bastante traumática. A volta ao trabalho e aos congestionamentos, acentuados pela intensa chuva deste início de ano em São Paulo, fizeram com que eu empurrasse para hoje o relato final da viagem. Mesmo porque o blog continua e outros assuntos tomarão o lugar da aventura mineira. Vamos lá então pegar a reta final, quando nós botamos o pé na estrada com o Nada Será Como Antes, de Milton e Ronaldo Bastos, rumo ao nosso cotidiano em Sampa.

No nosso último dia em Tiradentes – domingo, 2 de janeiro – reservamos nosso tempo conferir os últimos locais que havíamos anotado para conhecer. O atelier da artista plástica Lyria Palombini foi um deles. Cláudia já conhecia o trabalho da artista há mais de 20 anos. Ficamos lá um bom tempo admirando o irretocável e belo trabalho da artista, especializada em xilogravuras. Trouxemos algumas gravuras para nossa casa. No resto do tempo, corremos as lojas de artesanato e também da chuva que não deu trégua.

Lá pelo meio da tarde a cidade começou a se esvaziar de turistas e então ficou muito mais agradável caminhar por suas ruas sem aquele monte de carro pra lá e pra cá. Aliás, não entendo o porquê de as pessoas circularem tanto de carro pela pequena Tiradentes. Voltamos para a Villa Paolucci no início da noite para fazer as malas, abrir o vinho e chamar a pizza. Nessa ordem. Com tudo pronto, deixamos de fora apenas as roupas que usaríamos na viagem de volta no dia seguinte.

Após o café da manhã da segunda, 3, ligamos corretamente o GPS para fazer o caminho de volta para São Paulo pela mesma roda da vinda. Embora o caminho seja mais curto, decidimos não voltar pela Fernão Dias para não ter que enfrentar o estresse de dirigir na chuva ao lado de caminhões, ônibus e muito carro. A nossa Estrada Real, embora com mão dupla, é bem vazia e a paisagem é linda.

Paramos para almoçar no Cavalo de Ferro, em Pouso Alto. Aquele simpático restaurante-café-loja-de-artesanato onde paramos na ida para um café. Lá estava a espanhola Rosário. Sugeriu o cardápio e, enquanto a cozinha trabalhava, falou muito sobre sua vida, sua Madrid e sobre o seu simpático estabelecimento. Após o almoço, nos abastecemos de queijos, doces e pimentas e voltamos para os últimos quilômetros da Estrada Real. Havíamos decidido fazer um pit stop em Aparecida para ver a família, tomar um café e descansar um pouco até pegar a Dutra rumo a São Paulo.

Chegamos em Aparecida por volta das três. Depois cumpridas as visitas familiares, tomamos o rumo de casa. Um dos prazeres de toda viagem é a chegada em casa, ao computador, aos livros, filmes e discos. É como chegar à terra firme depois de tanto navegar.

Faltou dizer que dirigimos por cerca de 1.300 quilômetros entre Aparecida e Ouro Preto. Meu leitor consegue imaginar por quantos pedágios passamos? Se disser NENHUM acertou em cheio. Já no trajeto Aparecida-São Paulo, o motorista tem que pagar cinco pedágios na ida e cinco na volta. Em junho fui para Viradouro, pouco pra lá de Ribeirão Preto, distante 422 quilômetros de São Paulo. Passei por 18 pedágios e gastei um total de R$ 114,00. Não entendi porque em Minas Gerais você anda 1.300 quilômetros e não paga nada. Mistério.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Coração americano acordei de um sonho estranho...

A "foto da viagem" clicada por Cláudia
... Um gosto, vidro e corte um sabor de chocolate...

Deixamos Ouro Preto no dia 31 de manhã com chuva. Tiradentes seria a nossa última parada, o nosso Réveillon. Como fizemos durante toda a viagem, ligamos o GPS. Sem querer, Cláudia apertou um botão em que o aparelho sugere o caminho mais curto. E lá fomos nós seguindo a voz guia: a duzentos metros pegue a direita; siga em frente por cinco quilômetros; a quinhentos metros vire à esquerda. O caminho mais curto nos botou numa estradinha linda até um pequeno povoado... com Milton cantando outro clássico do Clube de Esquina: San Vicente, parceria de Bituca com Fernando Brant.

De repente a estrada e o lugarejo chegaram ao fim da linha e o GPS ficou sem sinal. Como vamos para Tiradentes? É só seguir em frente, mas a estrada não é muito boa, nos informou um morador. Quantos quilômetros? São 45. Bem, teoricamente, pelo GPS, ganharíamos alguns quilômetros. Vamos nessa. Só que a estradinha “não muito boa” não era só “não muito boa”. Era esburacada e de lama, acentuada pela chuva dos últimos dias.

Seguimos em frente sacolejando numa fantástica velocidade que variou entre 20/40 quilômetros por hora. No trajeto, cruzamos apenas com um motoqueiro praticando MotoCross – o local é ideal para este tipo de esporte – e alguns vaqueiros conduzindo o rebanho. Foram eles que nos informaram que ainda faltavam ainda 27 quilômetros para o final do tormento.

As horas não se contavam e o que era negro anoiteceu... Meia hora depois chegamos à “estrada mais longa” que o GPS não havia indicado – a mesma que nos levou a Ouro Preto. Saímos do barro para o asfalto e a placa indicava São João Del-Rei a 10 quilômetros em de lá, mais 15 até Tiradentes e à Villa Paolucci, uma linda fazenda colonial transformada em pousada.

Deixamos o carro na pousada e fomos a pé para a cidade... com o fiel guarda-chuva. Fizemos o primeiro giro com a chuva aumentando cada vez mais. Para nos localizarmos, passamos pelo Theatro da Villa, o restaurante que havíamos reservado com um mês de antecedência para a nossa ceia de Ano Novo. Estava fechado e somente às 9 da noite conheceríamos o belo espaço que oferece a seus clientes sugestões criativas como a perdiz recheada de vitela em redução de vinho do Porto com escalope de foie grás; filé mignon de javali ao molho de cacau e cogumelos silvestres; e o filé de linguado sobre ragu de lagostim e alcachofra ao molho de laranja.

Fomos os primeiros a chegar. Antes de escolher nossa mesa, um dos proprietários nos mostrou todos os detalhes: a decoração, a cozinha, o local de fumantes e, por fim, a nossa mesa. Abrimos um tinto e meia hora depois começaram a chegar os demais clientes. No Theatro da Villa passamos a nossa noite, com direito a ver, através da janela, os fogos que pipocavam lá na praça principal da cidade. Inesquecível esse lugar, que é parada obrigatória para quem visitar Tiradentes.

No dia 1 de janeiro de 2011 fomos para Bichinho. Achei curioso o nome do lugar. Nunca ouvira falar dele. Lá descobri que aquele distrito conhecido pelo nome de “Bichinho” foi fundado por Vitoriano Gonçalves Veloso, o único inconfidente negro que se tem notícia. Depois da chegada do artista plástico Antonio Carlos Bech, o Toti, há 20 anos, seus habitantes tornaram-se artesãos e se orgulham disso. A criatividade e simplicidade deles chamam a atenção dos visitantes. As peças e pinturas nascem do aproveitamento de material de demolição, madeira, ferro, lata, plásticos e tecidos de algodão. Bichinho fica a 7 km de Tiradentes. Lá almoçamos no Tempero da Beth, um dos restaurantes mais deliciosos da viagem.

Voltamos no final da tarde para a Villa Paolucci exaustos. Saímos apenas para buscar uma pizza e o vinho. Desmaiamos. Na alta madrugada Cláudia me acorda assustada. Tem gente querendo invadir o nosso chalé. Dei um pulo e tentei identificar o barulho. Não vinha da porta e sim do teto. Imaginei: uma pousada no mato, só pode ter algum animal alojado no forro, pois o barulho era como se algum animal estivesse tentando furá-lo. Como não vi nenhum buraco ameaçador, voltamos a dormir.

No dia seguinte, no café da manhã, contamos para o garçom Cláudio o ocorrido e que eles precisavam descobrir quem morava no forro do nosso chalé. Ele abriu um sorriso e disse: são os patos. Patos? Sim, à entrada da pousada tem um lago repleto de patos e o que eles mais adoram fazer é voar até o telhado dos chalés. O mistério não só foi resolvido como pudemos ver uma turminha deles passeando durante o dia pelo teto de outros chalés. Ufa!

Amanhã o blog conta o final da nossa viagem.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Para quem quer se soltar...

O clic de Cláudia para o "Pirulito que bate bate... "
...invento o cais, invento mais que a solidão me dá...

Como disse ontem, chegamos ao centro de Ouro Preto no final da tarde do dia 28 e, também como disse, o CD Clube de Esquina foi a trilha da nossa viagem. Então, Cais, de Milton e Ronaldo Bastos, também nos embalou na Estrada Real no caminho do ouro, sobretudo o tema instrumental ao final da música com o solo ao piano de Wagner Tiso. Este mesmo tema foi suntuosamente orquestrado por Elmir Deodato no final de Um gosto de sol, também da dupla.

A chuva apertou e ficamos pouco. O tempo suficiente para fazer o reconhecimento do terreno no entorno da Praça Tiradentes e escolher o Bené da Flauta, restaurante onde voltaríamos para o jantar às 9 da noite na companhia do DJ Paulo Sakae Tahira, sua mulher Cris e seu filho Benjamin. Nós os conhecemos assim que voltamos para a Sinhá Olympia. Numa das confortáveis salas da pousada havia revistas, livros de arte... e um violão. Não resisti. Afinei-o e fui para a varanda em frente à piscina. Cláudia e eu desfiávamos nosso repertório quando Paulão, Cris e o pequeno Benjamin se aproximaram.

A música foi o primeiro elemento de aproximação dos casais, mas descobriríamos outras afinidades. De pronto, combinamos jantar lá no Bené da Flauta. Como este mundo é mesmo uma pequena aldeia, descobri que Cris trabalhou na fase de instalação do Museu da Língua Portuguesa, onde hoje trabalho. Ou seja, ela conhece um monte de gente que eu conheço.

A pasta do Bené estava espetacular e o vinho nem falar. Duas garrafas de tinto embalaram os nossos papos noiteadentro. Saímos do restaurante quase meia-noite com um chuvão danado, que prosseguiu até a manhã do dia seguinte, quando partimos para um bate e volta em Mariana.

A chuva ia e vinha, o sol aparecia e sumia. Nosso passeio em Mariana aconteceu neste clima. Ficamos na cidade durante quatro horas, o bastante para percorrer as ruas e conhecer as igrejas. Na de São Pedro dos Clérigos, localizada no alto da Colina de São Pedro, subimos até o sino de onde se avista toda a cidade. Ela é uma das três igrejas barrocas de Minas com plano em redondo, característica revolucionária para a época em que foi construída, em 1752.

Almoçamos no simpático Lua Cheia, restaurante instalado em um casarão do século XIX com grande variedade em saladas e pratos quentes, culinária típica mineira. Depois da sobremesa voltamos para Ouro Preto, demos um novo giro pela cidade e voltamos para a Dona Olympia. Decidimos não sair para jantar. Pedimos uma pizza e enquanto comíamos fomos desafiados por dois hóspedes para uma partida de buraco. Fechado. A nossa dupla ganhou, é claro. Ao final da partida chegaram Paulão, Cris e Benjamim. Abrimos uma garrafa e meia de tinto e trocamos mais histórias até a meia-noite.

No nosso último dia em Ouro Preto contratamos o Edmar, o simpático e falante-mais-que-papagaio guia turístico. A princípio ele se espantou por não fazermos o trajeto de carro. Dissemos que queríamos caminhar. Coitado. Acho que nunca andou tanto e com um casal super curioso que queria ver todos os detalhes e parar em tudo quanto é lugar. O passeio começou às onze da manhã e terminou às quatro da tarde. Edmar é doutor em Ouro Preto. Contou tudo e nos levou até uma mina do século XVIII. Embora um tanto claustrofóbica, Cláudia enfrentou valentemente os 160 metros disponíveis à visitação.

Eu não tenho este problema, mas confesso que lá no fundo, vez ou outra, meu pensamento me levava até os mineiros do Chile que ficaram naquela escuridão aqueles meses todos. Para me confortar, rapidamente eu recorria à poesia do Drummond falando sobre a sua Itabira do Mato Dentro: “eu também sou filho da mineração e tenho os olhos vacilantes quando saio da escura galeria para o dia claro.”

Deixamos Edmar na praça e fomos às compras das lembrancinhas. Para enfeitar a minha estante, trouxe uma namoradeira – um dos mimos mais típicos da região. Soubemos depois, em Bichinho, que ela é uma das criações do artista plástico Antonio Carlos Bech, o como Toti. Ele é de São Paulo, chegou ao lugarejo há 20 anos e transformou o lugar. Ensinou boa parte da população a trabalhar com o artesanato e montou a sua Oficina de Agosto. Mas esta história é para o post de amanhã, quando partiremos para Tiradentes, a cidade escolhida para o nosso Réveillon.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ê morena quem temperou...

...Cigana quem temperou o cheiro do cravo... e a comida mineira. Ê trem bão!

A nossa viagem foi temperada pela deliciosa culinária das Gerais e a música Cravo e Canela, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos – o segundo tema da nossa trilha sonora on the road. Era a sexta faixa do CD e toda vez que chegava no ponto, aumentávamos o volume e soltávamos a voz na estrada com Milton Nascimento. Invariavelmente, repetíamos a faixa duas, três vezes.

A mesa do café da manhã na Pousada Magnólia, em São João Del-Rei, estava uma beleza: pão de queijo quentinho, cereais, queijo minas de Minas, bolos fofos de fubá e laranja, frutas e sucos frescos e saborosos. Deixamos a mesa às 10 e pegamos a estrada. Próxima parada: Congonhas.

No caminho passamos por Lagoa Dourada, Entre Rios de Minas e São Brás do Suaçaí. Achei o nome desta última cidade um tanto esquisito. Então, minha curiosidade me levou até o site oficial da cidade e descobri que São Brás do Suaçuí tem 3.278 habitantes e o amor à música é o traço marcante de sua pequena população. A cidade é conhecida na região pelo grande talento e vocação do seu povo para a música, tradição que é mantida pela banda União Musical Santa Cecília e a Escola de Música de São Brás do Suaçuí. Na próxima vez que estiver por aquelas bandas terei que fazer um pit stop nesta cidade musical no caminho do ouro.

Chegamos a Congonhas por volta do meio-dia. Pouco vimos da cidade, pois nos concentramos no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos construído em várias etapas, nos séculos XVIII e XIX, por vários mestres, artesãos e pintores, entre eles Aleijadinho e Manuel da Costa Ataíde. Lá estão os 12 profetas que conhecia de fotos. Vê-los de perto foi uma só emoção. Pena que não deu para fotografar a igreja em todo o seu conjunto, pois em uma tenda à direita especialistas tiravam o molde em gesso de um dos profetas. Eles serão reproduzidos com destino a um museu. Incrível saber que os profetas estão lá há três séculos testemunhando as muitas histórias que o Brasil viveu desde sua criação por Aleijadinho.

Almoçamos num restaurante indicado pelo posto turístico logo na entrada da cidade. Foi o único senão gastronômico da viagem. A refeição não foi tão boa como as que faríamos nos dias seguintes. Quando saímos foi que percebemos que logo em frente havia um mais charmoso e, com certeza, com uma culinária bem melhor da que havíamos terminado de degustar.

Lá pelas duas da tarde retornamos à Estrada Real rumo a Ouro Preto. Antes cruzamos Ouro Branco, que não tem nada a ver com a primeira, onde abastecemos o carro e prosseguimos até a Pousada Sinhá Olympia. Mais tarde saberíamos que entre os anos 50 e 70 Dona Olympia ou Sinhá Olympia circulava pelas ladeiras da cidade com suas roupas coloridas, chapéu florido, cajado na mão e um cigarro na boca; e também que foi retratada por fotógrafos e pintores; serviu de inspiração para músicos; e até foi tema de desfile da Mangueira, em 1990. Toninho Horta e Ronaldo Bastos compuseram a bela Dona Olímpia “Vai e não esquece de chorar. Vê se não esquece de mentir. Dizer até manhã e não regressar mais...”

Depois de digirir por 500 quilômetros por uma estrada linda, porém com mão dupla, nada com deixar o carro na garagem do hotel e caminhar. A Pousada Sinhá Olympia tem um serviço maravilhoso. Um funcionário da recepção deixa os hóspedes no centro da cidade e depois a gente volta de táxi. Perfeito, porque dirigir por aquelas ladeiras com aquela chuva é uma missão quase impossível, além do incoveniente de ter que estacionar naquelas ruazinhas estreitas.

Antes de sair, tomamos o delicioso chá da tarde – como o café da manhã – incluído no pacote da hospedagem. Todos os hotéis deveriam se espelhar neste serviço. É claro que está embutido no preço da diária, mas para os hóspedes soa como um serviço cortesia e o chá com bolos e rosquinhas fica muito mais saboroso.

Bem, quanto ao quando chegamos ao centro da cidade... fica para o post de amanhã, senão este ficará muito extenso. Mas não posso deixar de comentar um e-mail que recebi hoje sobre a primeira parte desta nossa aventura minheira. Em seu PS: meu leitor disse “agora quero ler "Brasil: uma História – Cinco séculos de um país em construção". Que delícia saber que o blog incentivou a leitura deste belo livro. Será que o Eduardo Bueno também leu?

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Com sol e chuva...

Igreja de São Francisco em São João Del Rey
Você sonhava que ia ser melhor, depois você queria ser o grande herói das estradas. Tudo que você queria ser...

Saímos de Aparecida no dia 27 de dezembro às 10 da manhã rumo ao caminho do ouro: São João Del-Rei, Congonhas, Ouro Preto e Tiradentes. Pegamos a Estrada Real em Cruzeiro. Quando entramos no território mineiro, colocamos o CD Clube de Esquina,
“obra que está para a MPB como Sargent Peppers, dos Beatles, está para a história da música do século XX”, opinião do DJ Paulão Sakae Tahira, que conheceríamos na simpática pousada Dona Olímpia, em Ouro Preto dois dias depois. Passei a concordar com Paulão, após ouvir diversas vezes esta pérola produzida por aquele clube de Três Pontas, capitaneado por Milton Nascimento.

Tudo Que Você Podia Ser, de Márcio e Lô Borges, foi o tema principal da trilha sonora da nossa viagem, sobretudo pelo seu começo: com sol e chuva. A viagem toda transcorreu com muita chuva e pouco sol. Mas não importa não faz mal... Cláudia e eu pouco nos importamos com a chuva intermitente que castigou o sudeste nesta passagem de ano. Concluímos que com muito sol talvez as nossas caminhadas pelas ladeiras de Ouro Preto seriam muito mais cansativas.

A primeira parada foi no Cavalo de Ferro, um simpático restaurante-café-loja-de-artesanato em Pouso Alto. Tomamos café na ida e almoçamos na volta, trazendo na bagagem queijos e doces da região. Tentei imaginar o motivo que fez a espanhola Rosário deixar Madrid para abrir aquela estalagem à beira da Estrada Real. Será que ela também veio em busca do ouro, como aqueles mineiros do início do século XVII? Ou será que ela descobriu que ouro foi exaurido e em seu lugar brotaram as incríveis cidades que conheceríamos em breve?

O melhor guia da nossa viagem pelas nossas cidades históricas do ciclo do ouro foi o meu presente de Natal. Ganhei o delicioso Brasil: uma História – Cinco séculos de um país em construção, de Eduardo Bueno. Sempre que voltávamos às pousadas, enquanto o corpo descansava das longas caminhadas, os olhos me contavam os detalhes da história do Brasil que Bueno tão bem descreve. Por que os livros de história do meu ginásio não tinham um texto tão saboroso? Cheguei até o Brasil Holandês, mas não pude deixar minha curiosidade saltar algumas páginas e dar uma esticadinha até a Inconfidência Mineira. Afinal, pela primeira vez eu estava lá naquelas cidades onde tudo foi tramado e tudo desfeito para ganhar as páginas da história. Bueno fala até da Marília de Dirceu, poema que, por motivos óbvios, sempre esteve na minha estante.

Chegamos a São João Del-Rei no início da tarde não sem antes passar por dentro de simpáticas cidades como Caxambu, Cruzília, Minduri e São Vicente de Minas. São João não é tão suntuosa quanto Ouro Preto e Tiradentes, mas tem um centro histórico bem preservado e uma pousada muito gostosa. Deixamos as malas na Pousada Magnólia, ao lado da Igreja de São Francisco de Assis, onde jaz Tancredo Neves, e fomos correr a cidade. A chuva, é claro, atrapalhou um pouco e tivemos que fazer o primeiro investimento da viagem: um guarda-chuva. O segundo seria uma capa transparente para a Cláudia em Tiradentes, menos para protegê-la da chuva e mais para agasalhá-la, posto que não levara nenhuma blusa de frio. Sim fez um friozinho chato sob aquela chuva intermitente que persistiu até depois do Réveillon.

Depois do giro pelo centro velho, paramos no restaurante Velho Chico, no largo em frente à matriz. Pedimos uma cerveja gelada e uns petiscos e começamos a tirar fotos, até que Juliana se ofereceu para fotografar o casal. Descansou seu copo de cerveja na mesa e depois do clic, se juntou a nós. Meia hora depois éramos amigos de infância. A simpática mineira acabava de retornar à sua cidade e o Velho Chico era seu restaurante predileto. Soubemos por ela muito mais que nos diriam os guias turístico. Juliana nos falou sobre o espetáculo que é a Semana Santa em São João. Faremos de tudo para não perder esta festa..

Após o papo e as cervejas, retornamos à pousada para descansar, tomar um banho e voltar ao Velho Chico às 9 da noite para o jantar. Saímos com o nosso inseparável guarda-chuva, pois àquela altura a chuva, embora bem fininha, molhava. Atravessamos a praça e lá continuava Juliana com o copo na mão. Ela não fora embora e acabou ficando com a gente até 11 da noite, quando retornamos para o sono profundo do primeiro dia de viagem, e ela ficou, sabe-se lá até que horas. No restaurante encontrei com o amigo Sérgio, dos tempos da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo.

Voltamos à Magnólia. O dia tinha sido muito comprido. Desmaiamos. No dia seguinte, após o café da manhã, retornaríamos à Estrada Real... com sol e chuva.

A viagem no blog continua amanhã. Agora vou voltar às paginas de Eduardo Bueno. Ainda tenho alguns séculos da nossa história para revisitar.