quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

VIDA VELHA

Vida velha renasceu
D’um baú do fundo do quintal
E nos trastes, tristes trapos
Desenterrados, mofos mortos
ressuscitaram.

Vida velha reviveu
Tempo puro, bem e mal
E das trevas, tréguas, tramas
Nunca d'antes reveladas
Ressuscitaram.

No mofo,
O futuro distante,
Hoje realidade.

E o sol entrando pelas
Entranhas, estranhando.

E hoje,
O futuro presente,
Com saudades do passado,
Do que foi esperança
Do que é só lembrança.

Vida velha
               Dividida
                         Dívida.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Le Brésil n´est pas un pays sérieux

Se De Gaulle tivesse dito mesmo esta frase, atribuída a ele – mas que a diplomacia francesa sempre insistiu ao longo da história em desmentir veementemente – estaria coberto de muitas razões. Uma delas: se o general estivesse vivo e assistisse à posse dos novos deputados nesta terça em Brasília cunharia definitivamente a mais famosa frase que o disse-que-disse disse que ele disse e não disse: O Brasil não é um país sério.

Vamos à escalação! A nova Câmara dos Deputados vai de: Danrlei de Deus no gol (espero que ele não dê uma voadora em nenhum nobre colega), Acelino Popó Freitas (que promete boxear com o Suplicy), Romário lá na frente (bem depois das duas da tarde, sem treinar muito), Jean Wyllys (ex-BBB, que vai fazer lá não sei o quê), e ele, o fenômeno: Tiririca (que chegou pleiteando um lugar na comissão de Educação e Cultura). Timaço.

Ah, não podemos nos esquecer dos novos talentos, que têm muito futuro na política: Garotinho, Paulo Maluf, ACM Neto, Sarney Filho, Esperidião Amin... e também dos “filhos de”. Sim o novo timaço conta com os famosos herdeiros de nome, sobrenome & política. Vamos lá: Renan Filho, (Renan Calheiros), Zeca Dirceu, (José Dirceu), Gabriel Guimarães (Virgílio Guimarães), até Ratinho Junior (filho do próprio) integra o escrete.

Não podemos nos esquecer das filhas, como Jaqueline Roriz (de Joaquim Roriz) e Bruna Furlan (e Rubens Furlan, prefeito de Barueri). Bem estes são, evidentemente, alguns exemplos. Vamos parar por aqui, não sem antes lembrar que José Sarney foi eleito pela quarta vez presidente do Senado (quanto tempo falta para a aposentadoria? Ela não poderia ser compulsória já?).

Depois de ler tudo sobre a cerimônia de posse na internet, deu uma preguiça. Lembrei do período eleitoral e das fabulosas campanhas na telinha, que elegeu a maioria deste nobre time que irá cuidar do destino deste Brasil nos próximos quatro anos.

Lembrei também que sempre, ao final de um mandato, todo mundo comenta sobre o fraco desempenho da maioria dos deputados daquela gestão: este nunca mais ganha uma eleição; ou nunca mais voto naquele; ou ainda, precisamos renovar a Câmara; etc etc etc. É só começar um novo processo eleitoral que uma boa campanha de marketing apaga da memória dos eleitores todas estas discussões e lá vem o escrete novamente para mais quatro anos.

Ah, depois de tudo isso, foi inevitável me lembrar da famosa frase de De Gaulle. E é com ela comecei e termino este post: "Le Brésil n´est pas un pays sérieux".

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A guerrilha nos tempos do Facebook

No domingo à tarde entrei no meu Facebook e recebi uma mensagem da amiga Francesca Cricelli/Anna Magnani:
“ATENÇÃO: Guerrilha rápida >> trocar sua foto do perfil por um ator ou atriz de cinema, em prol do tombamento do Belas Artes.”

Rapidamente escolhi um dos meus ídolos da sétima arte: Woody Allen. Depois de me transformar no ator e diretor, disparei o recado para todos os meus amigos. Ao mesmo tempo, percebi que muitos já haviam trocado sua foto por atores e atrizes prediletos. Comecei então a curtir um por um e descobrir então os segredos de cada um.

O Frederico Barbosa se tornou o Humphrey Bogart; Bia Matta, a Jessica Lange; minha sobrinha Júlia, Audrey Hepburn; Cláudia escolheu Carmen Miranda; Donny mandou ver Leslie Nielsen, homenagem mais justa, pois ambos são dois verdadeiros palhaços; Erica Franco foi de Natalie Portman; Fernanda Galib trocou sua foto pela de Jennifer Connelly, talvez por saber que ela é uma da minhas atrizes prediletas; Cristina Nolli virou Cameron Diaz; Rachel Biderman assumiu Andie MacDowell, mesmo porque ela já foi confundida nos EUA com a própria; Malu foi de Chaplin, Fernanda Peres de Juliette Binoche e a mana Rose, de Susan Sarandon. Na dúvida, minha amiga Paula Zwicker optou por Christina Ricci porque este foi um de seus apelidos, tamanha a semelhança dela com a atriz da Família Adams. A Chita, do Tarzan, foi a escolha de Thea, que conheci hoje.

Enfim, a guerrilha está se disseminando na rede. Ninguém precisou pegar em armas para assaltar bancos e, com isso, garantir o aluguel estratosférico que o proprietário quer cobrar para manter no nosso Belas Artes lá na esquina da Consolação com a Paulista. Bastou um chamado para que todos os guerrilheiros se prontificassem a participar de mais esta batalha para que o nosso Belas Artes continue a existir.

Vai dar certo? Espero que sim. Como disse, esta é apenas mais uma batalha nesta guerra. Espero que a mídia também descubra e engrosse nossas fileiras. Afinal, quanto mais “atores e atrizes” entrarem nesta trincheira, maiores serão as chances que o Belas Artes não acabe e continue sendo o espaço ideal para vivermos todas as nossas fantasias.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Lavo o sangue com as mãos deste justo

No feriado do dia 25 passei o final de semana em Aparecida. No sábado à noite encontrei com Maurício e Dora lá no Ouro Fino – aquele restaurante da minha juventude que comentei no post My Last Pictures Shows, no dia 15 de janeiro. Fazia tempo que não encontrava o casal amigo daqueles nossos anos verdes. Imediatamente, comentei sob o blog e o post A paixão de Cristo segundo Padre Marino, onde relatei parte das histórias daquela inesquecível montagem do GUTU – Grupo União Teatral Umuarama. Aliás, no final prometi: A paixão de Cristo segundo Padre Marino continua noutro post, pois este centurião ainda tem muitas histórias dos bastidores para contar.

E é o que farei agora, mesmo porque o encontro com Maurício foi providencial para que eu pudesse sanar muitas dúvidas, sobretudo quanto ao nome dos atores e seus respectivos papéis. Eu não lembrava, por exemplo, que Altair Turíbio, embora não tivesse o physique du rôle para interpretar o Nazareno, foi o escolhido para esta empreitada por ser locutor da Rádio Aparecida e, consequentemente, por ter aquela voz empostada FM de ser.

Turíbio era mais velho, profissional conceituado e com salário de gente grande, coisa que não acontecia com mais da metade daquele grupo adolescente, que vivia da mesada do pai. Como ele gostava de um uísque, e para atenuar o nervosismo de sua estreia na ribalta, contratou um garoto para ficar com o balde de gelo, a garrafa e o copo. Toda vez que o Nazareno/Turíbio saía de cena, o garoto estava lá na coxia com o copo estendido. Um gole rápido goela adentro e lá voltava Turíbio para a cena. A garrafa secou antes do fim da temporada.

Outra cena hilária que aconteceu no dia da estreia foi a do julgamento de Jesus e Barrabás (interpretado pelo Índio). Maurício fazia Pilatos e após dizer: "Quem é que vocês querem que eu solte: Jesus ou Barrabás?”, o povo – representado por uns 30 figurantes que ficavam no canto esquerdo da platéia, dois metros abaixo do palco – passou a gritar Barrabás, Barrabás. Índio decidiu então improvisar e saiu correndo em direção ao povo gritando todo feliz: “obrigado meu povo, obrigado meu povo”. E, para a surpresa de todo mundo, se atirou lá de cima do palco direto para os braços dos figurantes. Como o povo sofre. Não me lembro se alguém se machucou. Ao final da apresentação, Índio recebeu uma broca do diretor Padre Marino e nas duas seguintes apresentações não mais improvisou.

A cena continuou com a cena clássica em que o nosso Pilatos/Maurício lava as mãos. O nervosismo também tomou conta do nosso Pilatos/Maurício que errou justamente a frase que metade do planeta sabe de cor: “Lavo o sangue com as mãos deste justo.” Da plateia, é claro, veio aquele burburinho, pois todos haviam sacado que aquele não era bem o texto que Maurício deveria dizer. Que mico, hein Maurício?

Outra cena inesquecível é a do final. Amarrado na cruz, o mau ladrão Gestas/Tadeu dá a seguinte fala: “malditos romanos que me pregaram e me crucificaram”, seguido de uma cuspida nos soldados ao pé da cruz. Junto com ele estavam a Tutuza (Maria) e Terezinha Galvão (Maria Madalena). Tadeu se entusiasmou e o que deveria ser uma simples cuspida virou uma catarrada, que acertou na mosca, digo na orelha de Maria Madalena, que com as mãos postas como requeria a cena, disse com os lábios sem emitir qualquer som: “Tadeu, seu fdp, você me paga”.

Na sequência, o gran finale. Após a morte de Jesus, a sonoplastia solta a música grandiosa seguida de raios e trovões acentuado pela iluminação. A cortina se fecha. Aplausos. Abre. Mais aplausos. Fecha e abre. Fecha e abre... e fecha. Todo o elenco se cumprimentando em suprema felicidade devido ao sucesso, enquanto a direção de palco ajuda Jesus, Gestas e Dimas descerem da cruz onde estavam amarrados.

Apesar de o espetáculo ter terminado, Olavo, que fazia o Dimas (o bom ladrão) continuou imóvel lá no alto da cruz. A gente lá de baixo: “Olavo, pode parar de representar, o espetáculo acabou.” E nada. Olavo continuava mortinho da silva, como o fizera na cena final. “Olavo, Olavo...” Só então percebemos que ele tivera um mau súbito lá em cima e estava um tanto “desmaiado”. Foi aquele corre corre para socorrê-lo com sal e uns tapinhas na cara. “Onde estou, onde estou?”, disse ao recuperar a consciência.

Faltou dizer que fizemos uma sessão extra para os soldados da aeronáutica em Guaratinguetá. Montamos o palco num praticável montado no pátio, pois não havia teatro lá na Escola de Especialistas da Aeronáutica. Então, a iluminação teve que ser feita de baixo para cima, por todos os lados do palco. Aquele batalhão de soldados se acomodou  em cadeiras e lá fomos nós representar A Paixão de Cristo. Lá pelas tantas, Tutusa, que fazia Maria entra em cena com um vestido branco de cetim, iluminada por detrás do palco... de baixo para cima. Não deu outra, a iluminação realçou seu corpo, revelando as roupas íntimas. Os soldados sibilaram em uníssono ssssssssss. Tutusa caiu em prantos e foi difícil convencê-la retornar ao palco. Fecha o pano: rápido!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Ana Luísa, de Barranquilla

Analu clicada pelo padrinho Gustavo
Minha sobrinha Ana Luísa acaba de chegar das terras de García Marquez. Visitou Barranquilla e Aracataca – a Macondo do Cem Anos de Solidão, do Gabo. Foi a sua primeira viagem internacional. Gostei de sua determinação. Botou na cabeça que iria fazer essa viagem, trabalhou dobrado, juntou um dinheirinho e foi fazer a rota dos Cem Anos. Morri de inveja. Gabriel García Marquez é um dos meus escritores prediletos e nunca passou pela minha cabeça um dia fazer essa viagem. Viajei apenas nos livros, desde sempre.

Hoje abri o blog da sobrinha (http://novavelhaestoria.blogspot.com/2011/01/volver.html) e li o post post travel, que reproduzo aqui:

“(tem que saber que eu quero é correr mundo, correr perigo)

é tão estranho chegar e mais estranho ainda partir.
porque parece que viver é se enfiar nas escolhas até seu caminho ficar um só que até sufoca.

e viajar é voar. é olhar para o céu e se sentir pequeno ou mergulhar e ter medo da imensidão do mar. viajar é presente, é esquecer o porvenir. sempre o porvenir.

acho que escolho mergulhar todos os dias, nadar no sentido contrário do mundo.

não me enfiar, me soltar. voar.”

Ana Luísa querida, depois de ler esse seu post lembrei de um poema que fiz há muito tempo chamado Re-evolução (vou manter o título, pois ele foi criado antes da reforma ortográfica). Incrível, mas tem tudo a ver com as tuas palavras:

RE-EVOLUÇÃO (8 de dezembro de 2001)

É sempre bom voltar
Mesmo que não se tenha partido
Mesmo que não se goste de partir                     
Mas partimos sempre

Quantas vezes partimos
Deixando-nos à deriva
Tornando-se irreconhecível
o nosso redor

Então, acontece o vazio
Não nos achamos e nos perdemos
Cada vez mais

Nesta hora avaliando nossa vida
Descobrimos uma palavra: MATURIDADE
É ela que vai nos mostrar
O caminho de volta
Mesmo que, quando voltarmos
Não seja mais aquele
O nosso lugar.

É isso querida, divido os nossos blogs com todos os nossos leitores e como disse Bandeira em seu sublime Lua Nova: “todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir. Hei de aprender com ele a partir de uma vez. Sem medo, sem remorso, sem saudade."

PS: não resisti em ilustrar este post com a sua foto que dormiu na minha gaveta de recordações durante todos estes anos. O clic é do teu padrinho Gustavo que um dia também partiu por esse mundão.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um 25 de janeiro para Jobim & São Paulo

Hoje é o aniversário de 457 anos de São Paulo e também a dada de nascimento de Tom Jobim, que faria 84 anos. Não deu outra. Botei uma seleção de Tom na vitrola. Isso mesmo, na vitrola. Eu, felizmente, guardo os meus vinis e minha coleção Jobimniana está quase completa. Comecei com Stone Flower, passei por Urubu, Terra Brasilis e Matita Perê.

Almocei ao som do maestro soberano de Chico. Ao mesmo tempo, dei um search na internet e li um monte de coisas sobre Tom. Fui das entrevistas às frases e textos. Um texto me chamou a atenção e me reporto ao post deste blog no dia 16 de janeiro: Ai, Dindi, por que você foi embora? (http://dirceurodrigues.blogspot.com/2011/01/ai-dindi-por-que-voce-foi-embora.html). Lá eu falava da destruição do sítio Poço Fundo pelas águas de janeiro.

Neste texto do site oficial de Tom, o maestro também fala de seu refúgio na serra fluminense: “Várias canções foram feitas lá em Poço Fundo, como a "Estrada do sol", que posteriormente ganhou uma letra de Dolores Duran. Todas essas canções e sambas foram feitas sem o piano, porque eu não tinha piano lá. Naquele tempo não tinha nem luz elétrica. Foi tudo composto no violão.

Eu morava numa casa na beira do caminho, uma casinha precária, e estava construindo uma maior, no alto do morro. A casa tem que ser feita num lugar alto, arejado, em soleira. Comprei o terreno baratinho, construí uma casa boa, custou 120 tupiniquins, um negócio baratíssimo, uma casa ótima, colonial, telhado com aquelas telhas velhas e aquelas vigas de madeira de lei que eu encontrei num desmonte. No estado do Rio, tem muita fazenda que foi desmontada e ficaram aquelas madeiras que não existem mais nas florestas daqui: maçaranduba, roxinho, peroba-do-campo e tudo o mais. Aquilo tudo ficou exposto ao tempo, jogado fora.

Aquilo vem do tempo da escravatura. Depois que acabou o café, acabou tudo, aquelas madeiras foram usadas como lenha. Aquelas vigas imensas ficaram ali deitadas ao relento. Eu comprei aquilo a preço de banana, mandava o caminhão lá, pegava aquelas vigas, e contruí a casa com aquelas madeiras de lei que a gente morre, os filhos morrem, os netos morrem e aquela madeira fica lá. O bicho não consegue comer. É uma madeira fortíssima.

Aqui em casa, por exemplo, deu cupim, mas ipê não é comestível, não dá para morder. "Águas de março" nasceu assim. Foi feita em março, quase à entrada do outono. "E a terra ressequida bebera longamente a água da estação. E Fernão Dias entrou pelo sertão". Isso foi o Olavo Bilac que contou. É uma tradução poética. Depois, o americano me disse que as águas de março são as águas do degelo, quando os rios ficam parados, então aqueles rios começam a andar, e andam carregando aquelas pedras imensas de gelo. Aqueles rios do norte dos Estados Unidos, do Canadá. Essas são as águas de março para eles. Eu não pensei nisso, não fiz para isso.”

Vejam que Tom foi o pioneiro a falar sobre o meio ambiente. Desde sempre o tema esteve presentes nas entrevistas, nos textos e, sobretudo, em seu modo de vida e nas consequentes canções que nos legou.

Tom Jobim e São Paulo fazem aniversário neste dia 25 de janeiro. Ambos são duas paixões da minha vida. São Paulo – a minha realidade – é o local onde um dia sonhei viver e vivo desde 1973. Apesar dos tantos pesadelos e sobressaltos que a cidade me impõe cotidianamente, eu continuo vivendo por aqui. Confesso que toda vez que o fantasma da partida me ronda eu me pergunto: mas partir para onde? Por que deixar a cidade? São Paulo, você é o meu vício e não há remédio que me cure de você. Não dá para imaginar viver num outro lugar, assim como não dá deixar de ouvir as músicas que seu parceiro de aniversário fez para embalar todos os meus sonhos.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A paixão de Cristo segundo Padre Marino

Dirceu, fala alguma coisa! Falar o quê? Qualquer coisa!

Depois desta corda, desembestei a falar até Maurício Maciel me interromper. Está bom, você tem voz boa, vem fazer teatro com a gente no GUTU – Grupo União Teatral Umuarama. Este foi o teste que fiz num banco da Praça São Benedito em 1971 para a minha – supunha – futura e brilhante carreira de ator. O GUTU, dirigido por Maurício e Olavo, e o Grupo de Teatro do Colégio Américo Alves, dirigido por Fausto Padilha, eram os únicos em atividade em Aparecida naqueles distantes anos 70.

Participar do GUTU era um dos meus sonhos. Integrá-lo significava bem mais que o sonho de atuar. Tínhamos todos um comprometimento que extrapolava o proscênio. Para botar de pé nossas montagens, era necessário fazer cash, pois patrocínio era algo inexistente naquela época. Como o fazíamos? A principal fonte de renda era a barraca do GUTU na tradicional festa de São Benedito, que até hoje acontece na cidade no primeiro domingo após a Páscoa.

Durante uma semana o diretor, atores, técnicos e, claro, as namoradas se revezavam para vender cachorro quente, cerveja e refrigerante na barraca do GUTU. O resultado financeiro ia para o nosso caixa e significava também o respaldo para contratarmos peças com atores profissionais de São Paulo, que, vez ou outra, dava um lucrinho que engordava o caixa do grupo. Para se ter uma idéia, o maior sucesso da Capital que levamos para a cidade foi A Vinda do Messias, texto premiado de Timochenco Wehbi, com a soberba Berta Zemel, que ganhou com esta peça todos os prêmios de melhor atriz de 1971.

A minha estréia no GUTU aconteceu em O Boi e o Burro a Caminho de Belém, de Maria Clara Machado. A peça conta a história do nascimento do Menino Jesus, narrada por um Boi (Tadeu) e um Burro (Maurício), os dois astros do grupo. Eu fazia um reles pastor que tocava seu rebanho ao som de uma flauta, que ficava presa ao cinto do meu figurino. Numa das apresentações, a técnica soltou o play back um pouco antes da marcação da cena e este dublê de flautista correu desesperado para pegar seu instrumento e levá-lo à boca, para diversão da plateia, muitos compassos depois.

A peça seguinte foi produzida e dirigida pelo saudoso padre Marino Plentz. A congregação dos padres redentoristas, que administra as igrejas do santuário de Aparecida, bancou A Paixão de Cristo, montada com pompa, circunstância e grande elenco para ser exibida em três sessões durante a Semana Santa no Cine Aparecida.

Então, pela primeira vez o GUTU não precisou recorrer a seu caixa para esta produzir esta mega montagem. E, também, foi a primeira vez que seu elenco teve que ser acrescido por um sem número de atores e figurantes, posto que a saga da paixão de Cristo requeria muitos atores para interpretar os inúmeros personagens que todos conhecemos: Cristo, Maria, Maria Magdalena, Pedro, João, Judas, Pilatos, Barrabás, Caifaz, Dimas (o bom ladrão), Gestas (o mau ladrão) e Longinus, entre outros. Este último o centurião romano que fincou a lança em Cristo em sua agonia final na cruz para certificar de sua morte.

Qual o meu personagem? Ele mesmo: Longinus. Até hoje não imagino porque me escalaram para viver o centurião romano, afinal, quando os espectadores olhavam para o meu físico desde sempre “pele e osso e simplesmente quase sem recheio” não sabiam quem era mais magro: eu ou a lança. Aliás, meu figurino era o máximo: aquela saia de centurião romano, capa púrpura, capacete, espada à cintura, sandália com apliques que imitavam uma bota e a indefectível lança empunhada solenemente à direita do meu corpo, como nas histórias do Asterix.

O primeiro ensaio geral quase parou quando o ator que interpretava o Judas – escalado devido a sua "beleza" e sem nenhuma experiência anterior em cena – soltou a seguinte pérola: Judas entra, olha a platéia e sai. Evidente que ele não tinha mínima noção do que significava a rubrica de um texto teatral, mesmo que estivesse grafado entre parênteses. Entrou em cena, deu a fala e saiu para a coxia. O ensaio parou. O elenco caiu na gargalhada e foi difícil para o Padre Marino retomar o pulso do ensaio.

No dia da estréia paguei o maior mico da minha vida. Sem eu saber que haviam combinado antes, o elenco decidiu me pregar uma peça. Ficou estabelecido que todos deveriam acompanhar a procissão da semana santa a caráter. Como a procissão passava na porta da minha casa, decidi: na hora em que ela chegar eu entro. E foi o que fiz. Lá pelas cinco da tarde lá vinha a procissão “se arrastando que nem cobra pelo chão”. Aquela cantoria e reza toda e eu Longinus entrei sorrateiramente, procurando pelos meus companheiros de elenco.

A procissão foi me arrastando e nada de eu achar os meus pares “fantasiados” para a ocasião. Todo mundo me olhava esquisito e lá ia eu com a minha espada e lança querendo achar um buraco para me enfiar. E nada do buraco. A procissão prosseguia com o povo cantando e rezando... e nada do elenco. Quando entramos na rua do Cine Aparecida lá estavam os amigos do GUTU, todos com seus figurinos debaixo do braço, me apontando e morrendo de rir daquele desengonçado centurião romano. Saí da procissão e entrei em cena. Ao final, depois do grande sucesso da estreia, voltei do teatro para casa de Longinus.

A paixão de Cristo segundo Padre Marino continua noutro post, pois este centurião ainda tem muitas histórias dos bastidores para contar.