domingo, 31 de julho de 2011

Cuidado com os gestos ab-ruptos

Hoje, finalmente, instalei a 5ª Edição do Dicionário Aurélio no meu computador. O original, em papel, fica na estante para eu consultar no caso do apagão... Cada vez mais frequente na nossa São Paulo. Ao contrário dos puristas, prefiro pesquisar no computador. A consulta é mais rápida e quando vou à caça de uma palavra, acabo por descobrir novas e redescobrir tantas outras.

E são muitas as palavras. O acervo é de mais de cinco milhões de ocorrências, já computadas as cerca de três mil palavras mais frequentes na língua escrita contemporânea. A partir de agora, você pode tuitar à vontade sem medo de errar porque eu tuito, nós tuitamos e eles tuitam. Está lá no Aurélio, assim como flex, test drive e ricardão.

Depois de instalado, num gesto abrupto, pus-me a navegar pelo Guia Rápido da Nova Ortografia. Embora eu tenha lido bastante sobre o assunto e até assistido a uma palestra do especialista professor Ataliba, parei mais uma vez na questão do hífen... Eta sinalzinho chato! Quase caí quando descobri que o adjetivo abrupto agora tem que ser grafado ab-rupto, porque a regra diz que usa-se o hífen quando os prefixos AB, OB, SOB e SUB aparecerem antes de B, H ou R.

Os responsáveis pela reforma ortográfica capricharam no quesito hífen. No caso da regra prefixo termina em vogal + vogal igual – usa-se o hífen quando o prefixo terminar em vogal e a segunda palavra começar por vogal igual. Assim, antes grafávamos sem hífen as palavras antiinflamatório, arquiinimigo, microondas e microorganismo. Agora, elas se tornaram anti-inflamatório, arqui-inimigo, micro-ondas e micro-organismo.

Ai que nó! E a regra para as palavras que perderam a noção de composição? Não se usa o hífen em palavras compostas: o manda-chuva de antes virou mandachuva e o pára-quedas, paraquedas. No caso deste último tem o agravante do para (antigo pára), que perdeu o acento quando flexionado na terceira pessoa do presente do indicativo.

Assim, antes da reforma, a sentença O carro pára para o pedestre passar ficou chata. O carro para para o pedestre passar. Como o meu Word ainda não está adaptado à nova ortografia, ele acabou de tentar me corrigir na segunda frase. Ele quer que eu acentue o primeiro para ou elimine um deles.

Mais alguns exemplos: autoajuda virou auto-ajuda e aquele velho e bom filme em superoito, super-oito. Mas eu me peguei mesmo foi com o ab-rupto. Em tempo, o dicionário eletrônico traz uma inovação que é a locução dos exemplos por uma moça de voz suave. Ela diz ABRUTO, como antigamente e não AB – RUPTO.

Depois de muito navegar descobri que a equipe que atualizou a 5ª Edição do Dicionário Aurélio só se esqueceu de registrar o verbete Aurélio, porque este definitivamente é sinônimo de dicionário.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Jornalismo comparado

Em quem acreditar?

Acabo de ler os títulos da matéria sobre o julgamento de Cesar Cielo nos portais da UOL e Globo.

Título da UOL: Cielo encara quase seis horas de julgamento e deixa audiência em silêncio http://bit.ly/piYCwg

Titulo da Globo: Depois de quase seis horas, Cielo deixa julgamento do TAS sorrindo http://glo.bo/qHZwcQ

Depois de comparar as duas manchetes, o que fazer? Calar ou gargalhar?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Domingo de manhã em downtown

Madrugamos no domingo para cumprir um objetivo predeterminado: visitar O Mundo Mágico de Escher, exposição que, depois de dois meses e pouco em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, cumpria seu último dia de visitação.

Só mesmo os dois espertos para deixar a empreitada para os 45 do segundo tempo. Engrossamos a fila às 9h20 e lá ficamos até 11h15... Quando desistimos. Naquelas duas horas na fila paquidérmica, nos revezávamos. Fui buscar café e pão de queijo e aproveitei para fotografar alguns prédios do centro velho.

Apesar do mico, o astral estava incrível. No começo da XV de Novembro, uma produtora gravava um comercial com dezenas de figurantes. De repente, uma procissão de ciclistas surgiu do nada e cruzou o set. Quando perceberam as luzes e câmeras, passaram a gritar. Imagino o porre que deve ser para os produtores serem interrompidos a cada momento por curiosos que cruzam o set como se nada de extraordinário estivesse acontecendo por ali.

Gostoso mesmo foi rever o centro velho – com exceção da fila – vazio e com as portas fechadas que realçam a beleza dos velhos edifícios. Embora eu tenha circulado naquele espaço durante os oito anos em que trabalhei na Boa Vista, descobri algumas fachadas que antes não haviam me chamado a atenção. Sobretudo, porque durante a semana, você caminha preocupado com a massa que circula naquelas calçadas e pode, vez ou outra, mudar o seu destino. Se você parar, é levado. Se bobear, pode ser assaltado. Então, a vista não consegue desviar para o alto, onde se escondem os tesouros arquitetônicos.

Bem, como não conseguimos ver O Mundo Mágico de Escher, o que nos restou foi pegar o caminho de volta e decidir no caminho o cardápio do domingo. Vamos ao bacalhau com grão de bico e arroz soltinho e o tinto. A produção antecedeu o desastre, não menor que a frustração de não ter visto a exposição: às 4 da tarde tem Brasil x Paraguai. Agora vai desencantar, imaginei. Vamos meter pelo menos quatro nos hermanos paraguaios.

Eu disse quatro... Foram de fato quatro pênaltis pro mato... Que o jogo era de campeonato. Fosse o meu Verdão isso não aconteceria. Cleber & Cia. acertariam pelo menos uns dois, mas a Seleção dos tão aclamados Neymar e Ganso – que o Dunga não levou pra África do Sul – exageraram na arte de perder pênaltis. O baixinho twitou: seleção de M... Ele tem toda a razão, pois comandou brilhantemente a classificação para e a Copa dos EUA.

Bem, passado o tsunami, liguei em Chile x Venezuela. Afinal, o verde Valdívia é um dos craques dos chilenos. Oh, deuses do futebol! O que vocês aprontaram. A Venezuela de Hugo Chavez despachou o Chile, como o Uruguai havia feito antes com a Argentina; o Peru com a Colômbia; e o Paraguai com o Brasil. A Venezuela foi a mais surpreendente, afinal em edições anteriores havia assinalado apenas dois gols e era, invariavelmente, o saco de pancadas de todas as seleções; os três pontos garantidos.

É isso aí, a Venezuela de Chavez e das misses está na semifinal. E agora, vou torcer para que ela leve o título. Seria surpreendente e a história do futebol teria de ser reescrita.

Terminei o meu domingão no Canal Brasil. Reprisaram o show maravilhoso que o João Bosco fez no Auditório do Ibirapuera em 2006, acompanhado por uma banda maravilhosa e com convidados para ninguém botar defeito: Yamandú Costa, Hamilton de Holanda e Djavan. O título do show? Obrigado, gente!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Adeus, Mário Chamie

O meu café da manhã de hoje foi mais amargo. A rotina de ler o jornal vagarosamente trouxe aquela notícia que não gostamos de ler: Morre o poeta Mário Chamie, me contou a manchete.

Engoli a seco e minha memória me mandou correr à minha caixa de recordações para buscar o poema que Chamie emprestou para o espetáculo A Maçã de Eva, montado por Clarisse Abujamra em 1999. Eu fiz a produção gráfica e o poeta me enviou a pérola Virgindade, crime de sangue – que Clarisse dizia na peça – e que foi reproduzida por mim no catálogo do espetáculo. O poema chegou com a seguinte anotação do poeta:

Meu caro Dirceu Rodrigues: aí vai o meu poema Virgindade, crime de sangue completo. Bom espetáculo. Abraço Mário. São Paulo, 04/07/1999.

Ao rever a data, o susto foi maior. Enquanto lia o bilhete neste 4 de julho de 2011, o poeta Mário Chamie estava sendo velado no MIS doze anos após aquele bilhete.

Bem, saudoso Mário Chamie. Aquele encontro foi o nosso único nesta vida e o bastante para que eu pudesse admirá-lo, como poeta e como ser humano. A minha homenagem póstuma é deixar aqui registrado o teu poema para quem não viu a peça ou não conhece esta pérola lapidada pela sua pena.

VIRGINDADE, CRIME DE SANGUE

Miosótis neutro,
o antúrio
(clitóris teso)
floresce tarde
na haste
do desejo.

O crime de sangue
denso
por virgindade
exposta cedo
é a arte do ódio velho
de quem na rede
o fruto colhe
em tempo de fruto verde.

Fio vermelho,
quente é a vingança
do sangue alheio,
como quente é a serpente
de sangue
que o gozo da carne
expande.

Clitóris teso,
o antúrio
floresce tarde
na haste do desejo.

Mário Chamie