segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Memórias de um traficante

Dos 10 aos 14 anos, estudei num colégio interno em Aparecida, cidade onde nasci.
Aos 12, tornei-me um traficante... de gibis!


Para não sobrecarregar a lavanderia, as mães dos alunos da cidade lavavam as roupas de seus filhos. Era o meu caso. Todos os sábados o meu irmão Sidão levava uma trouxa de roupas limpinhas e cheirosas enviada por dona Lola. No meio dela, cuidadosamente camufladas, seguiam os últimos gibis “subversivos” que meu irmão conseguira garimpar naquela semana. “Subversivos” básicos como Pato Donald, Zé Carioca, Tio Patinhas, Zorro, Fantasma e Mandrake.

Imediatamente, por meio de códigos, os meus camaradas mais chegados ficavam sabendo da chegada da valiosa carga. A prerrogativa de ser o primeiro a ler era minha. Conforme eu ia devorando, passava para os demais colegas. Ler o gibi era uma aventura. Qualquer passo em falso significaria a apreensão da mercadoria e castigo inevitável ao infrator. Ler gibi naquele colégio de padres era um pecado quase mortal.

Naqueles anos de 1960, eu não poderia imaginar que somente no distante 2004 eu saberia que este tipo de censura era comum naquela época. Quem me contou foi Gonçalo Junior em seu livro A Guerra dos Gibis (Companhia das Letras). A igreja, as escolas e as ditaduras travaram uma guerra contra esse tipo de leitura que segundo a moral da época “incitava a violência” e deixava os alunos “preguiçosos” para com os deveres da leitura da literatura curricular.

A deliciosa Guerra de Gonçalo não deixou escapar nenhum detalhe. Impressionante a extensa pesquisa que o autor fez sobre o tema. O livro fala, sobretudo, da guerra travada entre Roberto Marinho e Adolfo Aizen, este último, o responsável pela chegada dos quadrinhos ao Brasil, nos anos 30.

O material de pesquisa foi tanto, que neste ano saiu Maria Erótica e o Clamor do Sexo, a continuação que, desta vez, fala da censura na época da ditadura a partir das histórias das editoras Edrel (de São Paulo) e Grafipar (de Curitiba), e a trajetória dos editores Minami Keizi e Claudio Seto, que foram diversas vezes à falência, além de perseguidos em nome da moral e dos bons costumes.

Gonçalo Junior mais que documenta a história. Ele faz dela um romance gostoso de ler. Além de sua especialidade nos quadrinhos, o escritor também se revelou um excelente biógrafo. Em O Homem-Abril, contou a história da Editora Abril sob o ponto de vista de Cláudio de Souza, que, durante 25 anos, foi o braço direito de Civita. O gaúcho José Luís Benicio da Fonseca ganhou Benício: Um perfil do mestre das pin-ups e dos cartazes de cinema. Sua última investida é Alceu Penna e As Garotas do Brasil: moda e imprensa – 1933 a 1975. Nela, ficamos sabendo em detalhes os primórdios da moda no Brasil. O livro é ricamente ilustrado com o traço elegante do artista, a tipologia das letras que ele estabeleceu e influenciou a imprensa, a publicidade, o design, a moda e o comportamento em todo país.

Ah, ia me esquecendo de citar o delicioso Tentação à Italiana – “Um tesão de livro”, como diz o título do prefácio de Álvaro de Moya – que conta história dos desenhos eróticos italianos. Ainda bem que este livro não existia naquela época, pois se aquele distante Dirceu tivesse sido pego traficando este livro... era expulsão na certa, do colégio e do paraíso.

6 comentários:

  1. Dona Lola acaba de dizer que foi duplamente enganada por você e pelo Sidão. Ela diz que não sabia deste tráfico rsrsrs mas, se diz muito orgulhosa de você e lhe deseja BOA SORTE.

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  2. Você esqueceu de dizer que eu também traficava (como era um colégio de padres)os livros de catecismo de CARLOS ZÉFIRO.

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  3. Olá Dirceu!! Parabens pelo Blog. Mantenha sempre atualizado hein! rsrs
    abraço

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